Linguística Aplicada ao Letramento e à Alfabetização

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Após mais de uma década de estudos sobre o processo de letramento no Brasil, o significativo avanço na conceituação de um domínio cognitivo de natureza sócio-histórica ainda não se mostra bastante e suficiente para assegurar às práticas escolares condições para superar estados de exclusão.  
Em razão disto, já se começa a perceber um movimento crescente, na escola e na sociedade como um todo, de retrocesso às práticas pré-construtivistas de Educação, cujos resultados estão historicamente associados,  tanto à cultura do fracasso escolar,  quanto a processos de exclusão social.
Mais do que um marco acadêmico, o Construtivismo representa um marco social - uma resposta mais do que justa a séculos de exclusão, provocada por um modelo de educação determinista e impregnado de mecanismos de  perpetuação de hegemonias públicas
Em países como o Brasil, nos quais o sentimento de auto-exclusão se consolida no interior das tentativas frustradas de interação com as práticas científicas de construção de conhecimentos,  a escola construtivista ocupa um papel revolucionário,  à medida que, mais
do que meramente ensinar,  busca construir uma identidade cognoscente positiva e verdadeiramente libertadora para todo um povo.
A fim de que a comunidade científica e todo o professorado possam, juntos, fazer valer seu compromisso em favor de um homogêneo desenvolvimento da sociedade brasileira, torna-se imperativo levar o Construtivismopara além de suas fronteiras atuais, no sentido de se instituírem novas bases para a consolidação das práticas de Educação Inclusiva.
Não nos basta incluir novos sujeitos nas classes escolares, tal como já pioneiramente se faz no Brasil. Hoje é preciso ir além: é preciso tornar os incluídos verdadeiros sujeitos sociais, legitimamente reconhecidos como tal, sob pena de se dar à escolarização um caráter meramente assistencialista.
Todavia, ir além no Construtivismo implica intervir, acima de tudo, na ordem instituinte da Escola, em sua cultura mais essencial, fundada fora dela própria, no interior da cultura científica. Pensar o letramento do povo do Brasil - a partir de uma perspectiva inclusiva e suficientemente ampla para contemplar toda a complexa subjetividade brasileira, com seus inúmeros sujeitos - demanda assumir previamente a concepção de um contexto em que diferentes Razões dialogam e se interpenetram. Não falamos de um país em que as culturas simplesmente coexistem. Falamos do Brasil,
país em que as culturas se reinventam mutuamente, agregando e multiplicando Razões e mundos possíveis.
A Razão científica - base fundamental da cultura escolar - não tem por princípio atender às Razões que os brasileiros reinventam por condição natural de seu viver o mundo. É exatamente disto, portanto, que emana o profundo estranhamento entre os sujeitos da Educação Inclusiva e sua condição de alunos. Conseqüentemente, é neste fato  que se encontra explicação para a profunda dificuldade encontrada pela escola - e pela sociedade - na condução de um projeto de Educação orientado pelo respeito às pluralidades, pela mediação em estados proximais e, sobretudo, pela ênfase no reforço da auto-estima.
O processo de letramento e, em seu interior, os processos vários de alfabetização, refletem exatamente a tensão e o impasse vividos pelas escolas brasileiras contemporâneas, devido à ausência de instrumentos acadêmicos que lhes permitam orientar as práticas mediadoras entre culturas orais e a cultura científica.
Por este motivo, o estudo teórico das condições de engenharia do pensamento em contextos plurais, bem como seu reflexo no processo de letramento (tomado como base exemplar de estados proximais), tem um papel decisivo para o futuro desenho do Construtivismo no Brasil, ao mesmo tempo em que nos leva a construir uma cultura científica à imagem do espírito de seu próprio povo.
Superado o custo de objetivação do letramento em contextos de múltiplos sujeitos cognoscentes, cabe ao processo de metaforização explicar e descrever as bases com as quais tais sujeitos se colocam frente à frente em processo de aproximação. Tal processo, regido por um sistema de valores de base metafórica, repercute significativamente, sobre o conceito operacional de interdisciplinariedade que, por sua vez, é base da orientação do planejamento e da operacionalização da experiência curricular.